Falando de arte


Pintura de Vicente Romero Redondo
Na postagem anterior, defini a Arte “como a forma que utilizamos nossos conhecimentos principalmente intuitivos para criamos e expressarmos o que é belo.” Então antes de prosseguir com as definições mais complexas e amplas do que é a Arte, julguei ser necessário esclarecer-lhes que todo ser humano possui duas formas de conhecimento: o intuitivo e o conceitual.

O conhecimento intuitivo é a “capacidade de perceber ou conhecer de maneira direta, imediata, sem auxílio do raciocínio”. (Dicionário Digital Larousse) Esta forma de conhecimento é gratuita, pessoal e individual, uma vez que se, por exemplo, colocarmos duas pessoas frente a um problema, principalmente que envolva a luta pela sobrevivência, com certeza elas agirão de maneira diversa, impulsionadas pela forma diferente com que a intuição de cada uma irá reagir.

Já o conhecimento conceitual, o qual também pode ser chamado de intelectual ou lógico, é um conhecimento impessoal e universal, uma vez que ele pode ser adquirido por qualquer um que possua o mínimo de interesse, esforço e vontade de estudar e aprender.

Para que todos compreendam melhor, usarei como exemplo a palavra morte, esta possui o significado claro e universal de que é o ato de deixar de viver, tal afirmativa quando utilizada está embasada no conhecimento conceitual que todos os seres humanos entendem e aceitam. Entretanto, para aquelas pessoas que possuem uma grande e profunda intuição, a maneira com a qual expressariam o significado da palavra morte seria bem diferente deste mencionado acima. Como exemplo, temos o grande poeta brasileiro, Álvares de Azevedo em seu poema intitulado Lembrança de Morrer:


Pintura de Vicente Romero Redondo

“Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
 Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.” 


Assim, fica nítido que um professor por mais dedicado que seja nunca tornará um aluno (mesmo o mais esforçado da classe) em um grande artista, pois para alcançar tal resultado, é necessário que o próprio aluno possua (mesmo que de forma subjacente) o conhecimento intuitivo e caberá ao educador a tarefa de inicialmente conseguir enxergar aqueles que possuam este dom da criação, para em seguida os auxiliarem através de incentivos a trilhar o caminho literário. Em alguns casos ainda, o professor deverá ter sensibilidade suficiente para lapidar o aluno, até que este desperte a intuição presente em seu ser.

Feitas estas explicações iniciais, voltemos a questão da definição da palavra arte. Afirmo-lhes que utilizei tal explicação (mencionada no primeiro parágrafo desta postagem) para conseguir facilitar o entendimento do termo através de uma linguagem mais coloquial. Todavia, isto não representa que tal definição é incorreta, mas sim que ela não abrangeu toda a polissemia do que realmente é a arte.

Uma pintura que hoje é considerada por alguns como arte, talvez na época em que foi criada não conseguiu atingir tal status de ser uma bela criação, ou seja, o conceito de arte é variável de acordo com o tempo, a cultura e os conceitos estéticos de uma época. Desta forma, por exemplo, as pinturas e desenhos pré-históricos que já foram consideradas primitivas, hoje são denominadas de obras de arte pré-históricas. Dentre as Belas Artes temos:
   
1. Plásticas (não possuem mobilidade):a Arquitetura, a Escultura e a Pintura
2. Rítmicas (possuem mobilidade):
[1] Psíquica [2] idiomática:(possui tal denominação, pois utiliza a mente e a palavra): a Literatura
Acústica: a Música e o Canto
Cinética: o Teatro e o Cinema
Orquéstica: a Coreografia e a Dança

Pintura de Vicente Romero Redondo
Porém não irei me estender sobre as formas de arte, uma vez que o foco deste blog é discursar sobre aquela que mais me encanta: a Literatura. É interessante mencionar, que inicialmente esta se confundia com a Gramática, pois os literatos eram considerados apenas como expositores de conhecimentos teóricos de poesia e gramática, ou seja, não possuíam o adjetivo de artistas. E foi apenas no final do século XVIII, que a palavra Literatura conseguiu abandonar a identificação que possuía com a gramática, para alcançar o significado especial que nos apresenta atualmente. Seguindo o conceito final exposto no livro Teoria Literária de Hênio Tavares, encerrarei com a seguinte definição:

“Arte Literária é a ficção ou criação de uma supra-realidade pela intuição do artista, mediante a palavra expressivamente estilizada.”  

Por fim, trago um excerto do poema As Palavras, escrito pelo poeta português Eugênio de Andrade que era na verdade o pseudônimo de José Fontinhas e as quais desde minha adolescência muito aprecio:
“São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.”




[1] Concernente a psique, a alma. / Que diz respeito a vida, mental nos seus aspectos conscientes e/ou inconscientes.  
[2] Referente a ou próprio de idioma.


4 comentários

  1. Idi ficou sensacional... A explanação a abordagem diferenciada, a colocação (inclusive para leigos), as particularidades do intuitivo e conceitual, simplesmente "mara". Muito bom mesmo - inclusive estou recomendando o Blog a outros colegas.
    Parabéns, sucesso e um forte abraço.
    Marcelo Oliveira

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  2. Obrigada Marcelo!!! Fico muito feliz com seu comentário, pois afinal é através da opinião dos leitores que saberei se estou trilhando o caminho certo!!!! Abraços, Idianara.

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  3. Olá querida Idianara. Pena que o texto acabou estava tão entretido que logo cheguei ao fim. Um texto muito bem escrito e explanado, onde mostra as diversas áreas da arte - inclusive a Literatura. Veja que em muitas obra literárias, vários autores utilizam outra formas de artes. Li um livro de Rubem Fonseca - O diário de um Fescenino - onde o foco é o Teatro. Tem "Água Viva" de Clarice Lispector onde a personagem é uma pintora. Stephen King também se vale disso também para escrever "Duma Key". Eça de Queirós, José de Alencar e Mário-De-Sá-Carneiro também. Interessante notar que muitas vezes há pessoas que sabem apreciar, porém não tem a intuição, outras têm mas não se aperfeiçoam. Mas, será que necessário mesmo? Vejam os grandes mestres - na Literatura - que fugiram, ou não chegaram a estudar, da Universidade: Fernando Pessoa, Faulkner, José Saramago, dentre outros. Parabéns pelo texto esclarecedor e didático. Abraço do Gonçalves.

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    1. Olá Sidney!! Primeiramente quero lhe agradecer pelo carinho e pela atenção! Sim, temos vários exemplos de livros onde a Literatura menciona as outras formas de artes como parte do enredo da obra. Em relação aos grandes mestres que você mencionou, (lembrei também de Machado de Assis, o qual foi um grande autodidata) eles possuem (em minha opinão) o conhecimento intuitivo que eu mencionei na postagem, pois ostentavam uma sensibilidade muito aguçada para a Literatura e por este motivo não precisaram estudar, ou pouco o fizeram, para serem grandes autores. Por exemplo, Éça de Queiroz formou-se em direito, mas sempre dedicou-se a escrever em jornais, revistas, criar livros, etc. E com o passar dos anos ele foi se aprimorando devido ao fato de buscar a perfeição. Por este motivo é que ele tinha o hábito de reescrever suas obras, como foi o caso de O Crime do Padre Amaro, romance que sofreu várias modificações, pois o autor mesmo após a publicação da primeira edição, acreditava que a obra deveria ser melhorada e por isso criava novos personagens, mudava episódios, introduzia outros,tudo para satifazer sua vontade de lapidar o romance. Enfim, para tornar-se um grande autor é necessário em minha opinião duas coisas principais: o conhecimento intuitivo e um infinito amor à Literatura. Abraços, Idianara.

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