Amor Próprio - Idianara Lira Navarro


Triste descoberta se fizera presente. 

Sua alma assemelhava-se com um barco chocando-se e lutando contra as ondas do mar durante uma vigorosa tempestade. O casco não suportando os fortes impactos cedera permitindo assim que o negrume do mar invadisse aos borbotões cada recôndito escondido da embarcação. Em pouco tempo tudo fora inundado e perdido. O que antes era forte e imponente, agora jazia fraco e inexpressivo. Tudo fora tomado e destruído por tão terrível revelação.

Seu coração que primeiro perdera o compasso, agora parecia um relógio adormecido com suas engrenagens aguardando que algo alinhasse novamente os ponteiros para que o tempo que por ora parecia suspenso no ar, voltasse a passar novamente. Sentia que talvez o ritmo de seu coração nunca mais seria o mesmo. Uma dor dilacerante o atingira e o levava de roldão a uma agonia profunda e desmedida.

Durante anos vivera em função do marido e por isso se anulara incontáveis vezes. Tanta dedicação e submissão apenas esperando sonhadoramente por um breve gole de amor, sim, não era necessária uma taça cheia (quem dera!) apenas uma mísera dose de amor, seria o suficiente para aplacar o nó da garganta que teimava em verter-se em lágrimas sempre que ele a humilhava.

Apesar de carregar as marcas de uma vida de infortúnios, dificuldades e inúmeros obstáculos, ela mantinha-se viva com as migalhas de “atenção” que ele lhe dava. Quantos sonhos deixara para trás durante toda sua vida? Quantos desejos não externados e menos ainda realizados, ficaram submersos em uma rotina caseira e insossa, onde apenas a presença de seus filhos era o que coloria sua existência?

Pacientemente aguardara que a vida lhe proporcionasse uma felicidade infinita, compatível com a dedicação e o amor com os quais lhe presenteava o marido diariamente, porém eis que surge a triste realidade: além de ter sido enganada incontáveis vezes, ele nunca a amara verdadeiramente.

Ao ser descoberto ele negara com veemência, mas após tão incontestável presença da verdade, confessou todas as imundícies de seus atos e em seguida caiu-lhe aos pés, com as mãos postas quase em oração e lágrimas nos olhos dissera-lhe tudo que ela sempre desejara ouvir: que a respeitava, admirava, valorizava não apenas como mulher, mas como mãe e esposa e principalmente que a amava de todo coração. Enquanto ele prosseguia em um monólogo incessante implorando perdão, ela relembrou tudo que vivera ao lado do marido, até o instante em que ele se tornara a personificação do que é insignificante e desprezível.

Conseguiria sobrepujar todas as traições e dar-lhe o perdão para continuar a amá-lo? Como beijá-lo sabendo que seus lábios os de outra tocaram e que suas mãos outros cabelos afagaram e outros corpos acarinharam? Como sentir-se especial ao ser dele, quando muitas outras também o foram?

Aguentara a quase total ausência de carinho, de atenção e as pequenas humilhações, mas não suportaria o peso esmagador de tantas traições. Então, apesar do imenso véu de dúvidas que caia sobre sua existência, esta era a única certeza que ela possuía: não mais poderia amá-lo e por este motivo estava livre. Sim! Não terminaria seus dias dedicando-se a um casamento em ruínas.

Após tantos anos a vida lhe pertencia novamente. Fez as malas e partiu para o mundo e para a vida. Tornara-se finalmente Laura, não a filha, esposa, mãe, nora, sogra, mas simplesmente Laura, dona de si mesma e de seus sentimentos, pois o amor que antes devotara a outrem agora finalmente tornara-se próprio. 

* Pinturas de Steve Hanks
               

4 comentários

  1. Nesse magnífico conto, senti fortemente Clarice Lispector e depois Raquel de Queirós, porém Clarice, sobrepujou. Adorei. A profundidade, o realismo, enfim uma mistura de sonhos, alegrias, realizações, misturados a ilusões, tristezas, inocência e despertar para a vida real. Parabéns Idianara! Continue com esses textos que agregam conhecimento e reflexão!

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    1. Mais uma vez me sinto honrada com suas palavras Sidney!!!!! Um grande abraço!!!!

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  2. Eu fiquei inebriado com as palavras e o sentido de todo o conto. Muito lindo, tocante e envolvente. Você pegou um tema comum e transformou numa lindíssima obra de arte.

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  3. Olá Rafael, infelizmente por algum erro nas notificações do blog, apenas hoje vi seu comentário...
    Fico muuito feliz, que meu texto tenha lhe causado tais emoções. Abraços!

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