A tempestade - Idianara Lira Navarro

 
E chovia. Incessantemente.

Densas gotas d´água debruçavam-se pela janela e escorriam pelas calhas inundando o pequeno jardim. O bailar da chuva parecia uma fuga desenfreada açoitada pelo forte vento e pelos inúmeros trovões, resultando assim em uma imensa tempestade. As folhas e flores inclinavam-se ante o peso da chuva, pareciam unir-se em uma inútil tentativa de esconder-se da agressividade da natureza que fustigava lhes incansavelmente. Era um espetáculo sem igual.

Ela abriu a porta do pequeno sobrado de janelas azuis e paredes amareladas pela passagem dos anos. Descalça, atravessou o batente da porta, olhou o céu no exato instante em que um clarão cortou as nuvens e iluminou-lhe a face, sendo possível vislumbrar um discreto sorriso de prazer e pesar em seus lábios. Sentia a chuva escorrer por cada centímetro de seu corpo. Usava um vestido elegante feito de um tecido tão fino, que este logo se encharcara e pendia totalmente molhado criando pequenas poças d´água ao seu redor. Parecia uma espécie de segunda pele e por baixo de seu delicado tecido, era possível vislumbrar os arrepios que lhe percorriam todo o corpo.

Andou calmamente até o portão, parou e de costas para a rua olhou para o sobrado que outrora tantas alegrias lhe trouxera. Quantos doces momentos ali vivera? Quantas felicidades ali partilhara? Quantas lindas descobertas ali fizera? Quantas festas e comemorações aquelas paredes haviam vivenciado? Agora tudo se fora. Apenas as lembranças restavam. Mas quais lembranças? As dela ou as dele? Ainda era difícil aceitar que a roda da vida se desprendera de forma tão brusca de seu eixo e os lançara ao vácuo da inexistência física.

Tudo acontecera muito rápido, a chuva, o brilho dos faróis, o som de seus próprios gritos, a água e depois o silencio. Este fora aterrador. Exatamente quando o barulho se ausentara que ela percebera o fim se aproximando. Por alguns instantes enquanto o carro se projetava lentamente para o fundo do rio, seu marido ainda tentara de todas as formas soltar o cinto que a prendia ao veículo porém, apesar de sua alma tal qual um pássaro ferido ainda lutar para manter-se presa aquele corpo, ela sabia que era inútil travar tal batalha, pois sentia que sua vida estava abandonando-a. 

Assim, com muito esforço perante a pressão do rio sobre seu corpo, ela ergueu a mão e tocou os dedos do marido. Lançou lhe um olhar resoluto que ele prontamente compreendeu. Era o fim. Se não estivessem cercados de água, de certo veríamos as lágrimas que teimavam em fugir de seus olhos e com certeza abraçar-se-iam se possível fosse. Porém o tempo que lhes restava era muito pouco comparado ao que suas almas almejavam para uma despedida adequada. Pouco a pouco o rio ia lhes consumindo e ao perceberem que nada poderiam fazer contra o triste fim que lhes aguardavam, tristemente sorriram, fitaram-se nos olhos e balbuciaram lentamente “eu te amo”. Ela então pensou antes de fechar os olhos: "até que a morte nos separe”.

Não obstante, ela percebera que nem a morte os separara, pois em todos os momentos a saudade a consumia enquanto ela velava por ele no hospital, torcendo por uma recuperação que nunca viria uma vez que ele definhava a olhos vistos. Certo dia ela sentiu que chegara o momento de voltar para casa e então compreendeu: ficariam juntos novamente! Ainda parada junto ao portão e olhando para o sobrado, de repente ela sentiu uma mão enlaçando sua cintura. Virou-se e então seus olhos novamente se encontraram. Imediatamente ela jogou-se em seus braços para finalmente dar-lhe o beijo pelo qual tanto o aguardara. Lembrou-se que certa vez ouviu alguém dizer que a saudade é o amor que fica, assim para ela não seria possível prosseguir e abandoná-lo estando com a alma repleta de saudade. Iria esperá-lo o tempo necessário para que juntos matassem a saudade e renascessem no amor.

*Ilustração de Alexander Jansson

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Cantora: Des'ree - Música: I'm Kissing You


4 comentários

  1. Esse conto lembrou-me o filme "Amor além da vida". Gosto de histórias que transcende, indo além do comum, do básico entrando o fantástico... A descrição é de um realismo que parece cena de um filme. As sensações, as emoções florescendo junto com a "Tempestade". Um tempestade trazendo a tona um triste momento, tornando-se um tempestade de emoções. Adorei idianara! Parabéns! Abraço!

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    1. Obrigada Sidney! Fico muito feliz em ter conseguido através deste pequeno conto, lhe proporcionar tudo que mencionou. Muito obrigada pela atenção! Abraços!!

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  2. Parabéns seu conto "A Tempestade" Me roubou lágrimas, fiquei encantada.

    Sua linda e triste história, parece minha história de amor, enquanto esperava meu esposo de uma viagem para jantarmos numa sexta-feira treze, quando recebo a trágica noticia que ele estava na pedra fria, do nicrotério, esperando por mim.
    Foram-se muitos anos. Um amor inesquecivél.

    Lindo seu conto!!! Parabéns! bjs na alma!

    Maria Machado

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    1. Muito obrigada Maria Machado! Tocar os sentimentos dos leitores é o ponto alto almejado por qualquer escritor. Fiquei muito emocionada ao ler seu comentário, afinal perder um grande amor é ser constantemente envolvida pela saudade. Desejo-lhe muitas felicidades e seja bem vinda ao Encanto Literário! Abraços!

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