Os olhos de minha Mãe (Para Maria de Lourdes Lira)

Pintura de Vicente Romero Redondo
Ao longo de nossas vidas, iremos nos apaixonar inúmeras vezes e por diversas razões. Enganam-se aqueles que acreditam ser a paixão apenas um sentimento de casais, ela se apresenta e se emaranha em vários âmbitos de nossa existência. E posso dizer que a primeira paixão que me recordo, foi pelos olhos de minha mãe...

Sempre me encantaram seu tom de verde, tal qual duas esmeraldas a iluminar seu olhar e quis a natureza que eu e minha irmã não o tivesse, para que apenas os olhos de minha mãe eu pudesse admirar. Mas minha paixão não se restringe apenas a cor, é uma longa história que permeia toda minha existência...

Nasci de parto normal e segundo a história, estávamos só eu e ela, as enfermeiras tinham saído da sala, assim, a primeira maravilha que vi ao chegar neste mundo, foram os olhos de minha mãe e neste instante provavelmente que se deu tamanha paixão. E conforme eu crescia, sentia a presença constante daquele olhar. Expressivamente eles traziam o mundo e mesmo que em diversas ocasiões ela não me falasse claramente seus sentimentos, seus olhos verdes sempre refletiam o que ela trazia na alma.

Fui uma criança bem agitada e que deu bastante trabalho, mas exceto algumas chineladas, minhas lembranças mais vividas são as mais doces: fazer rosquinhas de barro e ela deixar eu assá-las no forno; comer as rosquinhas amanteigadas (de verdade) que ela fazia; ver seu rosto sorridente em minhas apresentações da escola ou seu ar preocupado quando o diretor contava a ela que eu tinha brigado com alguém e seu conselho irredutível: “não quebre nada de ninguém, pois, não podemos pagar, mas sempre se defenda!”


Comunicativa que sou, muitas vezes não conseguia interpretar seu olhar e assim, muitas discussões também tivemos. Hoje refletindo melhor, vejo que minha mãe não foi muito convencional, mas diferente e única: nunca foi adepta de abraços e beijos, ou de comemorações, mas do jeito dela era carinhosa, não me ensinou a cozinhar quase nada, nem a lavar, passar, limpar e já adolescente adorávamos passar o fim de semana assistindo filmes. Para ela o importante era estudar e com certeza, meu apreço pela leitura e pelas artes, foi desenvolvido em grande parte pelo apoio dela.

Desenvolvi minha imaginação, através de horas desenhando, escrevendo ou lendo e mesmo com recursos escassos de uma infância humilde, ela sempre se esforçou para me dar o que estivesse ao seu alcance com o objetivo de que um dia, eu fosse algo mais do que uma simples dona de casa, ou que eu me tornasse aquilo que quisesse, não apenas o que pudesse. Anos e anos ela trabalhou dentro e fora de casa para que eu e minha irmã, tivéssemos um lar.

Pintura de Vicente Romero Redondo

Tempos atrás em decorrência de um problema de saúde, temi perder minha grande paixão. Os olhos de minha mãe fecharam-se num esgar de dor e dias passei na angústia da incerteza, se eles voltariam a se abrir ou enxergar a vida de antes. Entretanto, aos poucos eles foram renascendo, se iluminando, me reconhecendo e vendo o mundo novamente, mas de outra forma, mais bela e vivida.


Tal qual uma fênix ela ressurgiu e evoluiu para um ser tão iluminado como se o amor e a luz que existia em seus olhos, agora tomassem todo o seu ser e envolvesse também todos a quem ela ama. Não sei se uma mãe consegue ser mais especial do que sua própria existência e trajetória, mas a minha com certeza o é. Assim, hoje, no dia em que ela comemora mais um aniversário quero dizer obrigada, por dentre todas as pessoas do universo, você ser minha mãe e continuar a iluminar minha vida e me acompanhar com seu apaixonante olhar. Te amo!



Yann Tiersen - Tempelhof



2 comentários

  1. Linda homenagem. Fico imaginando quando for sua vez de ser mãe,aos seus olhos o amor inexplicável por seu filho. ❤💯

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    1. Muito obrigada! Realmente acho que será algo mágico em minha vida! :) Abraços e obrigada pela visita!

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