Poema: A Grande Jornada (3.ª Parte) - Gonçalves Reis


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Não há beleza igual a do crepúsculo,
Que revigora músculo por músculo,
Transmitindo-no muita paixão;
E um bom momento de reflexão:
Atrás daqueles grandes verdes montes,
Que o sol descansa além do horizonte,
Existe um lugar dos vencedores,
O sol nasce brilhante; o ar cheio de odores,
Floríferos de orquídeas e bromélias,
Antúrios, sempre-vivas e camélias,
A brisa, lá, macia é de organza,
O mar, às vezes forte, é só bonança,
A chuva é sempre calma e temporã,
Depois que passa , o mato co’a maçã,
Vai perfumando o extenso ambiente,
Tornando tudo fresco, ou, então, caliente,
E lá, nesta cidade, não há temores,
Pois todos depositam suas dores:
Desilusões, injúrias e fracassos,
No Letes são jogados – passo-a-a passo,
As águas são mais frescas – minerais,
As plantas são mais verdes – sim são mais,
Nenhuma intriga, nem desunião,
Nem mesmo inveja, orgulho, ódio e ambição,
Pois a cidade é para muito poucos –
E não para o covardes e nem loucos,
É lá que todos contam as histórias,
Algumas tristes, outras com vitórias,
Mas todas, à princípio, mui felizes,
Pois sempre no final, diretrizes,
Quantas lições não foram aprendidas?
As tantas cicatrizes das feridas,
Já desapareceram – não há marca,
Não resta ao menos uma bem mais parca,
Pois lá não há nenhum ressentimento,
O povo lá é muito hospitaleiro -
Quer seja peregrino ou forasteiro;
As casas, lá, são mais aconchegantes,
Amenas, aquecidas, elegantes.
Lugar divino amor que se mantêm...
Com glórias, aleluia, hosana, amém –,
Aceso da esperança no futuro,
Dos jovens hoje – fortes – imaturos,
Que perdem-se com coisas tão danosas,
- Sofisma – ilusões esplendorosas,
De um mundo inexistente e mui vazio,
Querem calor! – mas só encontram o frio,
E não aceitam ! – ficam revoltados,
Ninguém entende!: “Todos ‘stão errados!”...

(Continua)

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