Poema: A Grande Jornada (7.ª Parte) - Gonçalves Reis


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Que caminhada dura – com espinhos,
Estradas tão desertas – sem carinhos,
Sem cantos dos bons pássaros cantores,
Estradas que só tinham dissabores,
Escuridão sofrida – que tristeza,
Estrada sem nenhuma realeza,
Às vezes tão demente, tão sombria,
Deixando qualquer alma assim fria
Mais uma luz brilhava incessante;
“Não desistais!”falava “Sempre avante!...”
Cansados- tão cansados – nós seguimos –
Mas nunca fatigados – prosseguimos.
A doce e leve chuva de outono,
Bem mansa, abençoava o verde gomo,
Sim verde- muito verde- da esperança,
Querendo nos mostrar a gran bonança
Mas muitos já diziam: “Que distante!
Queríamos chegar lá num instante;
Mas o caminho está dificultoso;
Somente sofrimento e nenhum gozo…”
Choramos, sim, choramos – só choramos,
E a chuva tão dourada, sobre os ramos,
Juntavam-se às lágrimas salgadas,
Limpava as visões entrenubladas,
Que gotas sacrossantas – tão amenas
Tornaram nossas faces mais serenas,
Chegamos esquecer dificuldade,
Queríamos só chegar lá na Cidade,
Caminho duro aquele – quanta pedra!
Com rochas pontiagudas – ninguém quebra,
Tão finas e cortantes – que navalhas! –
Miríades de miríades como palhas,
Deixamos pela Estrada nosso sangue,
Ficamos, num momento, um tanto exangue,
Pensamos todos nós “Conseguiremos!”
E ali como tememos – sim tememos –
Mas, de repente, um bálsamo tranqüilo,
Curou nossas feridas com estilo:
Não derramamos mais as nossas lágrimas,
Que ardia como fogo de um vinagre nas
Feridas rubras roxas – pustulentas
Ficaram limpas, puras – sim – isentas,
O sol quente, às vezes escaldante,
Queimando-nos com raio radiante,
Deixava-nos co’aquela insolação;
Pensávamos se havia salvação
Ali naquela areia – no deserto,
Até que uma nuvem chegou perto,
Choveu e deu-nos água fresca e sombra;
O chão nos pareceu macia alfombra…

(Continua…)

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