Poema: Uma hemera - Gonçalves Reis

A magia foi-se embora!
O encanto terminou!
Sim não há mais nada agora -
Ilusão que já passou...

Se foi sonho evaneceu
Que foi? - Brisa?! - evaporou.
Já foi dia - hoje é breu -
Foi um corte que sarou...

Foi espuma dissipada,
Foi um sol - belo dourado;
Uma amena madrugada -
No momento está nublado...

Uma ânsia, um anseio,
Um delito, um desejo;
Tudo belo - hoje feio,
Uns abraços - nenhum beijo...

Uma estrela a cintilar
Uma névoa de utopia
Oh que choro! que pesar
O que gran melancolia...

Uma chuva de verão
Uma flor de onze horas
Uma rápida paixão -
Que feriu com as esporas...

Foi a correnteza  d'água
Grande chama - agora brasa,
Alegria - hoje mágoa!
Um alguém que não tem casa...

Uma rosa; - Hoje Espinho!
Uma seda - agora brim!
Um sorriso sem carinho,
Um começo - hoje o fim...

Se foi sonho - ilusão,
Se foi brisa ou encanto,
Quem sentiu? - O coração -
A harmonia do acalanto...

Se foi dia ou espuma,
Se foi sol ou madrugada,
Alegria é como pluma:
Logo vai-se em revoada...

Essa vida é maresia,
Dela muito se espera;
Mas não dura mais qu'um dia,
É névoa - uma hemera...

Então viva a ilusão!
Busque a estrela a cintilar!
Prove a chuva de verão!
Deixe a chama te secar...

Viva essa madrugada!
Prove d'água a correr!
Cheire a rosa nacarada!
Sinta um pouco do prazer...

O que é felicidade?
Uma bolha de salão,
O sim é diafaneidade -
Do Saara, só um grão...

Foi magia; - hoje é pó.
Foi encanto - hoje é cinza
Uma sensação de só -
Presa numa estranha pinça...

Pois a vida é uma procura
Dela muito se espera
Só que pena que não dura
Mais qu'um dia - uma hemera!...
Abril - 1999.

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