Não te gosto em silêncio - J. G. de Araújo Jorge


Conheci as poesias de J.G. de Araújo Jorge na adolescência, lembro que encontrei um livro dele velho e empoeirado na biblioteca da escola e até hoje seus textos me encantam. Então, a partir de hoje, vou compartilhar com vocês alguns destes belos poemas.



Não te gosto em silencio porque te sinto distante...

entre a tua boca e a palavra mora talvez minha angústia
como entre o dia e a noite 
vacila a longa duvida do crepúsculo.

Não te gosto em silencio,quando ha em teus olhos pousados,
dois estranhos pássaros noturnos,
e teus lábios emudecem como a fonte nos ásperos e intermináveis invernos.

Não te gosto em silencio quando te envolves com as coisas
que te cercam, como se fosses uma delas,
quando estás como as águas paradas, cuja beleza é apenas o reflexo das estrelas.

Por isso te provoco e te atiro perguntas
como pedras quebrando a impassividade do lago,
como pancadas no gongo que estremece e vibra e te trás à tona para mim.

Não te gosto em silencio, porque parece que atrás de tua voz
ainda se esconde alguém que tu própria não conheces,
alguém embuçado a ameaçar nosso sonho
e que só tuas palavras poderão expulsar.

Não te gosto em silencio, porque preciso ainda de tua palavra
para te descobrir
lanterna adiante de meu passo, alvorada desenterrando na noite emaranhada meu indeciso caminho.

Porque preciso ainda que a tua palavra chegue como um vento forte
arrastando nuvens, limpando céus e horizontes,
levando folhas doentes, te descobrindo ao sol...

Um dia te gostarei em silencio. E então me recolherei em teu silencio,
e procurarei a sombra, como um pássaro na hora da tarde,
e porque o sol estará em nós e nada turvará meu pensamento,
entre tua boca e a palavra haverá apenas um beijo.



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